A experiência radical

por Gerson D'Addio

 

Nunca é demais lembrar que os propósitos do Yoga vão bem além do corpo, mas mesmo que se tratasse de um conjunto de técnicas com objetivos meramente físicos, já se distinguiriam por uma perspectiva singular.

 

Os exercícios físicos convencionais são normalmente focados nas estruturas mais superficiais e visíveis do corpo, dando pouca ou nenhuma ênfase às estruturas mais profundas e menos visíveis. Assim, é comum vermos as pessoas em academias de ginástica, condicionando seus músculos peitorais, abdominais, glúteos, quadríceps, bíceps e tríceps, dentre outros, e isso é positivo, porém seriam estes os músculos mais importantes do corpo?

Estão eles associados às funções mais vitais? A resposta é: não.

 

Obviamente músculos como os abdominais são de grande importância, com ações posturais, respiratórias, protetoras, mas a importância do diafragma para a respiração é primordial, bem como a dos paravertebrais profundos (músculos mais intimamente conectados à coluna) para a postura.

 

Do mesmo modo, muitos outros músculos que auxiliam ou mesmo determinam importantes funções são raramente exercitados de maneira sistemática, tais como os grupos musculares orofaringeanos (músculos da boca e da garganta) oculomotores (músculos que movimentam os olhos) e do assoalho pélvico (músculos que delimitam inferiormente o quadril).

 

A despeito da importância de todas essas estruturas, é inimaginável ver alguém numa sessão de ginástica fazendo uma série para fortalecer o diafragma; o mais importante músculo do corpo, bem como os demais músculos mencionados.

 

Porém é interessante notar que há técnicas de Yoga para fortalecer, alongar ou simplesmente obter maior domínio sobre a ação de cada uma dessas partes: técnicas como agnisara (estimulo do fogo digestivo) e Uddiyana bandha (trava ascendente), respectivamente, fortalecem e alongam o diafragma; as posturas meditativas associadas ao shaktichalanamudra (selo do movimento de Shakti) condicionam os paravertebrais profundos; o simhásana  (postura do leão) e o jiva bandha (trava da língua) condicionam os músculos orofaríngeos; os drishtis e o trataka (fixações de olhar) condicionam os músculos oculares e, enfim, o mula bandha ( selo da raiz) e o ashvini mudrá (selo do cavalo do amanhecer) condicionam o assoalho pélvico, que é o enfoque deste artigo.

 

Mula bandha e Ashvini mudrá

A execução do mula bandha consiste em contrair isometricamente (mesma dimensão) este conjunto de músculos, ou seja, sustenta-se a contração muscular estática por algum tempo. A técnica esta descrita nos principais textos do Hatha Yoga (Hatha Pradipika, Gheranda Samhita e Goraksha Shataka).

  • No Hatha Pradipika III – 60 refere-se que: “pressionando o períneo contra o calcanhar e elevando o apana, deve-se contrair o ânus”. Essa descrição é muito semelhante à do Goraksha Shataka 37.

  • No Gheranda Samhita III-12 e 13, a descrição é mais detalhada: “pressionar a região perineal (termo cientifico atual que traduz parcialmente o termo original empregado) com o calcanhar do pé esquerdo e contrair o ânus. Em seguida, pressionar o umbigo contra a coluna com força, colocar o tornozelo direito cuidadosamente no órgão genital. Este mudrá, chamado mulabandha, previne o envelhecimento”.

 

Tomando-se como base, o Gheranda Samhita, devemos lembrar que se recomenda um ásana especifico para a execução do mula bandha e, neste caso, trata-se do Siddhasana (postura perfeita), reputada nos textos clássicos como a mais importante postura de Yoga ao lado de Padmásana (postura de lótus)

Note que no Siddhasana já é feita uma compressão extrínseca do assoalho pélvico pelo calcanhar e a esta se soma uma compressão intrínseca, pela ação de todos os músculos anteriores relacionados. Assim, nesse momento gera uma força ascendente, com a retração do assoalho pélvico, o fechamento de orifícios como o ânus a uretra e a vagina, e a aproximação de extremidades ósseas como os ísquios, cóccix e púbis. Essa força ascendente é descrita na linguagem tradicional como reversão do apana, que é a energia regente dos processos de eliminação e, por isso mesmo, predominante nessa região.

 

Como se não bastasse, há ainda outro detalhe mencionado, que é a contração do abdome, o que leva a um aumento da pressão intra-abdominal, e, somando-se isso a contração do assoalho pélvico, potencializa-se a sensação de uma força ascendente, que pode ser percebida como algo se irradiando para cima ao longo da coluna lombar.

  • No Hatha Pradipika III – 64 descrevem-se este fenômeno como união de prana e apana (forças regentes dos processos de absorção e eliminação). Em nossa linguagem fisiológica clássica, podemos mencionar esses eventos como sensações interoceptivas e proprioceptivas (do próprio corpo) decorrentes de variações de pressão, estímulos circulatórios e sensibilização associados à concentração na região abdominopelvica.

  • O Gheranda Samhita III-64 vai além, sendo o único destes livros a descrever outra técnica com ênfase nessa mesma região: O ashvini mudra (selo do cavalo do amanhecer). A descrição é muito simples, dando margem a distintas interpretações ou formas de execução: “contrair e abrir a abertura anal repetidamente é ashvini mudra, que desperta Shakti”. Note que esses movimentos de abertura e retração alternada do ânus e adjacências são exatamente equivalentes aos movimentos que os equinos fazem ao defecar, daí provavelmente o nome da técnica. Segundo alguns especialistas, a diferença entre esta prática e a do mula bandha está no fato de que aquela é uma contração estática, enquanto está é intermitente, intercalada com momentos de relaxamento da musculatura do assoalho pélvico.

 

Aqui, contudo, pode ser levantada uma importante questão de ordem prática: A abertura do ânus neste caso ocorre somente de modo passivo, pelo relaxamento dos músculos do assoalho pélvico, ou ocorre de modo ativo, pela geração de uma força descendente atuando sobre esta região? No primeiro caso, a execução é mais simples, bastando contrair e relaxar alternadamente o mesmo grupo muscular pélvico, mas no segundo caso, torna-se necessária a ação de outros músculos que intensificam a abertura do ânus e dos demais orifícios da região pélvica.

 

Para tanto, devem ser acionados conjuntamente os músculos abdominais e o diafragma. Quando este último se contrai, abaixa e comprime os órgãos abdominais contra as paredes do abdome, que poderia expandi-las.

 

Porém, se os próprios músculos que formam essas paredes também se contraem, gera-se uma força descendente que “empurra” o assoalho pélvico para fora, caracterizando melhor o movimento dos eqüinos. Neste caso, o ashvini mudra é mais completo que o mula bandha em sua técnica de execução e em seus efeitos fisiológicos, somando os efeitos da contração aos do alongamento muscular do assoalho pélvico.

 

Em conjunto, essas duas técnicas melhoram a circulação sanguínea na região, aumentam o tônus muscular e a sensibilidade. Essa pratica oriundas da Índia tornaram-se conhecidas em outros núcleos culturais orientais, sendo aperfeiçoadas na Tailândia e no Japão e, enfim, chegando ao ocidente já com inovações, tais como o uso de equipamentos específicos, sendo hoje reconhecidas como pompoarismo. Investigações científicas levaram a conclusões importantes sobre aplicações terapêuticas e preventivas dessas práticas.

 

Na década de 1950, o ginecologista Arnold Kegel constatou que a fraqueza do feixe pubococcígeo estava associada a casos de incontinência urinaria em mulheres e aperfeiçoou essas técnicas originais criando um método de condicionamento muscular desta região. Foi constatado paralelamente que esses exercícios também melhoravam as funções reprodutivas, e principalmente com intensificação dos orgasmos e maiores níveis de excitação, além de serem excelentes preventivos contra prolapso genitais pós-parto e impotência masculina.

 

Hoje é notório que mulheres treinadas na arte do pompoarismo são capazes de intensificar seu prazer e o de seus parceiros e isso por si só já vale a pena, mas não devemos perder de vista que os objetivos originais dessas técnicas no Yoga são espirituais: a menção de união do prana com apana como efeito do mula bandha(Hatha Pradipika III-63 e 64) significa transcender a dualidade chegando se a uma experiência de unidade, sendo também este o significado do despertar da Shakti (ou Kundalini), mencionado no Gheranda Samhita III-64 como efeito do ashvini mudra. É preciso apenas lembrar que essas técnicas isoladas e descontextualizadas não levarão ninguém a tais experiências elevadas, mas trabalhar a partir da nossa raiz (mula em sânscrito, radis em latim) é essencial para dirigir todo o processo, ou seja, é necessária uma experiência radical no sentido literal do termo.

 

 

Fonte: Prana Yoga Journal

© 2013 by CEPY - Centro de Estudos e Práticas em Yoga - Site desenvolvido por Diego Cerqueira Rodrigues