Qual a importância de se estudar a estrutura do corpo humano (Anatomia) e seus movimentos (Cinesiologia) no contexto atual do Yoga?

por Diego Cerqueira Rodrigues 

           Este artigo, assim como a própria prática do Hatha Yoga, busca a integração e o equilíbrio entre polaridades...

           No caso deste texto, as polaridades são as seguintes:

Visão 1: Ciências como anatomia e cinesiologia apenas afastam o Yoga de sua real essência!

Visão 2: Hoje em dia a prática de Yoga é majoritariamente física, sendo assim, ciências como anatomia e cinesiologia constituem praticamente a base desta tradição indiana.

           Para iniciarmos, vou recorrer aqui a duas definições clássicas de Yoga, presentes em duas das principais obras sobre esta tradição milenar:

 

samatvam yoga ucyate – (Bhagavad-Gita, Cap. II – 48)

Yoga é equanimidade (da mente).

Yogaś citta vṛtti nirodhaḥ – (Yoga Sutras de Patanjali, I – 2)

Yoga é o recolhimento das modificações da mente.

         Perceba que se substituíssemos a palavra Yoga por Meditação, a essência do que é transmitido em ambas as definições não se alteraria. Ou seja, essencialmente, o conceito de Yoga está relacionado a um estado de consciência, no qual existe uma qualidade peculiar de estabilidade mental.    

        Ao longo de sua trajetória o Yoga foi vivenciado por grandes mestres que perceberam – através de práticas constantes e disciplinadas – que era possível acessar este estado elevado de estabilidade mental e integração através de preciosas técnicas psicofísicas. Em outras palavras, a estabilidade começa a ser construída no instrumento mais tangível que dispomos (o nosso corpo) e gradualmente vai atingido níveis cada vez mais sutis. E é com este pensamento que surge o Hatha Yoga, tradição com profunda influência do Tantra, a qual compreende o corpo como um templo sagrado e, por isso, merecedor de cuidado e reverência.

          A partir deste ponto é que o estudo da anatomia e cinesiologia começa a fazer mais sentido no contexto desta tradição milenar, pois para que se possa vivenciar plenamente tais técnicas psicofísicas é importante que o praticante desenvolva um autoestudo das estruturas do corpo e seu funcionamento. Inclusive para que, posteriormente, seja desenvolvida uma investigação minuciosa sobre anatomia sutil (chakras, nadis, vayus, etc), temas centrais no sistema do Hatha Yoga. 

          Assim, retornando às duas visões extremistas citadas no início do texto, podemos afirmar que a Anatomia e a Cinesiologia não constituem de forma alguma a base do Yoga. Entretanto, é possível observar, principalmente pelo viés do Hatha Yoga, que são ciências que podem contribuir de forma significativa no estudo/prática desta tradição milenar, desde que aplicadas de forma coerente a alinhada aos reais princípios do Yoga.

 

          Desta forma, peço a gentileza de não confundir as diversas técnicas psicofísicas que o Hatha Yoga propõe com exibicionismo estético, performance, alopatia e/ou esporte de alto rendimento. Para clarear a nossa compreensão sobre os asanas - já que essas são as técnicas mais enfatizadas neste texto – basta observarmos dois dos três sutras em que Patanjali discorre sobre este assunto:

 

sthira-sukham āsanam |Yoga Sutras 2.46|

A postura deve ser estável e confortável.

prayatna-śaithilyānanta-samapattibhyām |Yoga Sutras 2.47|

Pelo relaxamento do esforço e meditação no infinito a postura é dominada

 

         Ou seja, para que realmente a postura mereça o nome asana, é fundamental que exista um equilíbrio entre firmeza e relaxamento, que a façamos com o mínimo de esforço possível e que exista um real estado de presença.

 

Contrassenso

         O aumento vertiginoso das rentáveis ginásticas com tempero indiano - que infelizmente carregam o sobrenome yoga – está trazendo à tona um tema que, para o contexto do Yoga, chega a ser surreal:  os crescentes casos de lesões físicas devido às práticas intensas, mal orientadas e com uma atmosfera de competição e alta performance. Eu já disse que este cenário é surreal, certo?

Inspiração

      Venho de uma tradição vinculada ao Kaivalyadhama College of Yoga, no qual o estudo clássico do Yoga é acompanhado do estudo científico do Hatha Yoga. Pela minha experiência, percebo que quando o Yoga recebe influência de metodologias modernas, geralmente acontece algum tipo de deturpação sobre a essência de seus ensinamentos. Entretanto, enxerguei na obra de Swami Kuvalayananda (fundador do instituto de Kaivalyadhama) uma vida dedicada ao yoga, o que pode ser constatado através de suas pesquisas profundas e sempre respeitosas aos seus princípios.

 

 

Aplicações dos conceitos da Anatomia/Cinesiologia na prática de Hatha Yoga

        Apresentarei a seguir algumas orientações sobre Anatomia e Cinesiologia aplicadas ao Hatha Yoga de forma muito concisa e introdutória.

          Para realizar este estudo inicial farei algumas considerações básicas sobre o Sistema Locomotor:

 

Sistema Locomotor é a combinação do sistema muscular com o sistema esquelético que, juntos, proporcionam proteção aos órgãos internos, sustentação e capacidade de locomoção do corpo humano.

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SISTEMA ESQUELÉTICO

O sistema esquelético é composto por 206 ossos de diversos formatos/tamanhos e funções específicas. Podemos dividir o esqueleto em duas porções:

  • Esqueleto axial: formado por crânio, caixa torácica e coluna vertebral;

  • Esqueleto apendicular: formado pela cintura escapular, cintura pélvica, membros superiores e membros inferiores;

Os ossos apresentam algumas funções muito importantes:

  • Proteção de órgão vitais (cérebro, medula espinhal, coração, pulmões, etc.);

  • Estrutura de fixação dos tendões advindos dos músculos;

  • Armazenamento de minerais (fósforo e principalmente o cálcio);

  • Na medula óssea vermelha: hematopoiese (produção de hemácias ou glóbulos vermelhos), responsáveis por realizar o transporte de oxigênio através do sangue;

  • Na medula óssea amarela: produção de leucócitos ou glóbulos brancos, células fundamentais do nosso sistema imunológico (defesas do organismo).  

Articulações

     São estruturas que compreendem a junção de dois ou mais segmentos ósseos, podendo haver movimento, ou não. Neste artigo trataremos das articulações que apresentam maior capacidade de mobilidade, conhecidas como articulações sinoviais.

Composição:

  • Capsula articular

  • Ligamentos

  • Cartilagem articular (hialina)

  • Liquido sinovial

 

     A capsula articular e os ligamentos formam um complexo de tecido conjuntivo com a função de envolver, proteger, delimitar e estabilizar a articulação. A cartilagem articular (hialina) reveste as extremidades dos ossos para que não exista atrito entre os segmentos ósseos. O Liquido Sinovial funciona como o “lubrificante” desta capsula devido a sua viscosidade.

 

 

     De acordo com a quantidade de eixos de movimentos, as articulações sinoviais podem ser classificadas como (dois exemplos de cada):

Uniaxiais

  • Atlantoaxial: localizada entre as duas primeiras vertebras cervicais, permite movimento de rotação;

  • Úlmeroulnar: localizada no cotovelo, permite o movimento de extensão/flexão

Biaxiais

  • Radiocarpal: localizada entre o antebraço (radio) e punho (carpo), permite o movimento de extensão/flexão e lateralizações;

  • Joelho (fêmoro-patelar e fêmoro-tibial): permite movimentos de extensão/flexão e uma leve rotação;

Triaxiais

  • Escápulo-umeral: localizada no ombro, permite movimentos nos três eixos – abdução/adução, flexão/extensão e rotação.

  • Coxofemoral: localizada entre o quadril e o fêmur, permite movimentos nos três eixos – abdução/adução, flexão/extensão e rotação.

   É importante lembrar que compreender as características e o funcionamento das articulações pode auxiliar significativamente na preservação da integridade física das estruturas corporais, uma vez que permite ao praticante, por exemplo, realizar as técnicas do Hatha Yoga com mais consciência sobre suas potencialidades e limitações.

 

 

Coluna Vertebral

Estrutura:

  • 7 vertebras cervicais

  • 12 vertebras torácicas

  • 5 vertebras lombares

  • 5 vertebras sacrais

  • 4 ou 5 vertebras coccígeas

Funções:

  • Eixo de Fixação e sustentação do tronco e das estruturas apendiculares;

  • Mobilidade do tronco e absorção de impactos;

  • Forma o canal medular;

 

 

 

 

Movimentos da coluna relacionados com as posturas do Yoga:

  • Extensão

    • Bhujangasana (postura da cobra)

    • Dhanurasana (postura do arco)

  • Flexão

    • Halasana (postura do arado)

    • Paschimottanasana (postura do alongamento posterior ou “pinça”)

  • Lateralização (ou inclinação lateral)

    • Ardhachandrasana (postura da meia lua)

    • Parsvakonasana (postura do ângulo lateral)

  • Rotação (ou torção)

    • Ardha matysendrasana (meia postura de Matysendra)

    • Parivrtta Dandasana (postura do bastão com rotação)

     

Existe um “quinto movimento” que podemos chamar de tração, trata-se do movimento de alinhar a coluna, aumentando o espaço entre cada uma das vertebras e criando um distanciamento entre a base no cóccix e o topo na região cervical/crânio. Trata-se de um ajuste interessante de ser realizado antes de iniciar a construção de alguns asanas (principalmente os sentados e os em pé).

 

 

SISTEMA MUSCULAR

 

       

 

 

      O sistema muscular é composto por aproximadamente 600 músculos estriados (ligados ao esqueleto). A seguir, trataremos resumidamente de suas propriedades e funções:

 

PROPRIEDADES

       O tecido muscular é composto por células com características bem peculiares, entre elas:

Contratilidade

      Na contração muscular ocorre o encurtamento das fibras musculares, decorrente do deslizamento e sobreposição dos filamentos de actina e miosina (proteínas).

Excitabilidade

      A contração muscular só é possível pela capacidade de excitação elétrica que as células musculares apresentam.

Elasticidade

    Trata-se da capacidade que o tecido muscular apresenta de se alongar além do comprimento de repouso, bem como retornar em seguida a este estado original.

Plasticidade

    Trata-se da capacidade que o tecido muscular apresenta de alterar sua morfologia, seja através da hipertrofia (aumento da massa muscular), seja por aumento do comprimento do segmento muscular (aumento da flexibilidade).

 

FUNÇÕES

Movimentação

    A capacidade contrátil das células musculares e a conexão do tecido muscular com o esqueleto (através dos tendões) são fundamentais para que possamos gerar movimentos nos diferentes segmentos do nosso corpo.

Sustentação

     Diversas estruturas do nosso corpo são sustentadas com o auxílio do sistema muscular, inclusive a nossa postura. Por exemplo: se um indivíduo exibe um bom tônus muscular na musculatura que envolve a coluna, consequentemente, apresentará a capacidade de manter um alinhamento postural adequado com mais facilidade.

Proteção

     Uma outra função importante do sistema muscular é a proteção que ele proporciona à diversas estruturas e órgãos do nosso corpo. Dois exemplos: 1. Uma articulação se torna mais estável quando a musculatura que a envolve apresenta tônus adequado; 2. Proteção de órgãos vitais como aqueles localizados na cavidade abdominal.

 

TIPOS DE CONTRAÇÕES MUSCULARES

Concêntrica

   A contração concêntrica ocorre quando a força produzida é maior que a resistência oferecida (ocorre o encurtamento do músculo).

Excêntrica

      A contração excêntrica ocorre quando a tensão gerada, por ser inferior, é superada pela carga imposta (ocorre o alongamento do músculo).

Isométrica

      A contração isométrica refere-se à ação muscular durante a qual não ocorre nenhuma alteração no comprimento total do músculo.

 

RELAÇÃO DA PRÁTICA DO HATHA YOGA COM O SISTEMA MUSCULAR

 

      Para que uma prática de Hatha Yoga seja equilibrada (no nível físico) é importante que, além de contemplar os diferentes movimentos que a coluna vertebral pode realizar, ela também contemple o desenvolvimento de variadas capacidades físicas e habilidades motoras, tais como:

 

Flexibilidade

     Esta talvez seja a capacidade física mais evidenciada nas práticas corporais que o Hatha Yoga propõe. Muitas posturas apresentam características de alongar a musculatura em diferentes segmentos do corpo, entretanto, é importante que este alongamento ocorra de forma equilibrada por dois motivos: 1. Para que não ocorra estiramento excessivo e consequente lesão; 2. Para evitar a hipermobilidade, o que pode gerar instabilidade articular;

 

 

 

 

 

 

1. Paschimottanasana                                       2. Halasana                                 3. Ustrasana

 

 

Força

       Força é a quantidade máxima de tensão que um músculo ou grupamento muscular pode produzir em um padrão específico de movimento realizado em determinada velocidade. Ou seja, na prática do Hatha Yoga desenvolve-se a capacidade de força quando o próprio peso corporal é sustentado em diferentes posturas.

                                              

                                                                                  

 

 

 

 

  1. Naukasana ou navasana           2. Chaturanga dandasana (variação)                 3. Utikatasana

 

 

Resistência (muscular)

        É definida pela habilidade de um músculo ou grupo muscular exercer um esforço submáximo por um extenso período. Força de resistência pode ser atingida por ambas as contrações, sustentadas (isométrica) e repetidas (dinâmica). Esta capacidade é trabalhada durante a permanência em asanas que exigem esforço muscular. Quanto maior o tempo de permanência, maior será o desenvolvimento da resistência muscular.

 

 

  1. Bhujangasana                    2. Setubandhasana                               3. Purvottanasana

 

OUTRAS HABILIDADES CORPORAIS RELACIONADAS AO SISTEMA LOCOMOTOR

 

Equilíbrio

            Equilíbrio corporal pode ser definido, basicamente, como a habilidade de manter o centro de massa corporal dentro de uma determinada base de sustentação. Diversas posturas do Hatha Yoga trabalham esta habilidade que gradualmente vai se transformando em equilíbrio emocional, energético e mental.

Dicas para asanas de equilíbrio: 1. Mantenha os olhos abertos com o olhar fixo em um ponto estável; 2. Observe o contato da sua base de apoio com o chão, mantenha este contato firme e consciente; 3. Relaxe as estruturas que podem ser relaxadas, desfaça possíveis tensões; 4. Mantenha a respiração fluindo naturalmente; 5. Busque estabilizar a mente para que essa estabilidade se reflita no corpo;

                                                                                                  Vrikshasana

 

 

 

Coordenação Motora

 

É a capacidade de sincronizar movimentos de diversas estruturas do corpo, desde grandes grupos musculares até pequenas estruturas como os olhos, tornando estes movimentos mais organizados e eficientes.

Com a prática do Hatha Yoga é possível exercitar frequentemente a coordenação motora, desde a estabilidade osteo muscular nos asanas e em outras técnicas, até a sincronização da respiração com o movimento do corpo como no Surya Namaskar:

 

 

 

 

 

 

  

Inversão do senso de gravidade

 

      Para caracterizar as posturas invertidas e colher todos os benefícios que lhe são peculiares, é necessário que o coração esteja em um nível mais alto do que o cérebro. Ou seja, não é necessário colocar o topo da cabeça no chão e elevar os pés para o alto como observado em shirshasana¹ (ainda que esta postura seja a que apresenta maiores benefícios quando falamos de posturas invertidas). Podemos colher benefícios semelhantes em posturas mais simples e acessíveis, como: 1. Partindo-se da postura em pé, inclinar o tronco à frente buscando apontar o topo da cabeça em direção ao chão (utanasana)²; 2. Ou ainda numa postura deitada, elevar o quadril apoiando as palmas das mãos na região lombar (viparita karani)³.  

 

 

        *1                                                *2                                                    *3

                                  

 

 

 

 

 

 

 

         

          Assim encerro este breve estudo que buscou relacionar ciências como anatomia e cinesiologia com a prática de Hatha Yoga que, em essência, utiliza-se da prática corporal como uma estratégia metodológica para se atingir níveis mais sutis de consciência. Desta forma, nada mais inteligente e natural que utilizemos - de forma coerente - alguns conhecimentos científicos de que dispomos atualmente para contribuir em uma compreensão plena desta tradição milenar.

           Espero que este artigo possa contribuir para uma prática de Hatha Yoga mais consciente e segura, lembrando que este estudo não substitui a presença de um professor experiente na sistematização de sua prática pessoal.

 

*** Este artigo é fruto de pesquisa e estudo/prática pessoal, caso deseje reproduzir total ou parcialmente, pedimos a gentileza de manter a autoria e entrar em contato conosco!

 

Referências Bibliográficas

  • Gharote, M.L. Técnicas de Yoga. São Paulo: Phorte, 2007.

  • Kaminoff, Leslie. Anatomia da Yoga. São Paulo: Manole, 2013.

  • Souto, Alicia. A Essência do Hatha Yoga. São Paulo: Phorte, 2009.

  • Silva, Gerson D’Addio; Santaella, Danilo Forghieri. Anatomia e Fisiologia aplicadas ao Hatha Yoga – Vol.1: Sistema Locomotor. São Paulo: Carthago Editorial, 2011.

  • Taimni, I.K. A Ciência do Yoga. Comentários sobre os Yoga Sutras de Patanjali à Luz do Pensamento Moderno. Brasília: Teosófica, 2011.

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