AVIDYĀ: Uma visão embaçada da vida

(O olhar do Yoga sobre a ignorância)

por Diego Cerqueira Rodrigues

Vamos imaginar o seguinte:

Diante de ti há um espelho embaçado. Consequentemente (e obviamente), a imagem refletida está desfoque. Agora pense o quão surreal seria se você convictamente acreditasse que a imagem que se apresenta à sua frente fosse a representação perfeita da realidade. Seria estranho, não é mesmo?

 

Entretanto, é exatamente isso que a maioria de nós fazemos quando criamos a percepção da realidade ao nosso redor, enxergando as distorções como se fossem verídicas. Assim como na analogia do espelho, estamos convictos que esta percepção “embaçada” da vida, baseada em crenças limitantes, condicionamentos negativos, interpretações equivocadas e preconceituosas, representa a realidade tal como ela é!

 

Na tradição do Yoga temos um termo sânscrito que concebe a raiz de toda esta confusão: avidyā – a ignorância.

 

Há aproximadamente dois milênios o sábio Patanjali discorreu de forma primorosa sobre avidyā como sendo a principal causa das misérias e sofrimento humano, pois é através da ignorância que o indivíduo se identifica em demasia com um personagem limitado e aprisionado a uma novela mexicana sem fim que poderia se chamar: “Entre Apegos e Aversões”.  

Em sua obra, Yoga Sutras, Patanjali fala o seguinte sobre avidyā:

 

anityāśuci-duḥkhānātmasu nitya-śuci-sukhātmakhyātir avidyā

 

Trad: Ignorância é confundir o impermanente com o eterno, o impuro com o puro, a fonte de sofrimento com a fonte de felicidade e o ego com o Eu verdadeiro. (Y.S. II-5)

 

Perceba que o sentido de ignorância abordado aqui não se refere à simples ausência de erudição, ou de conhecimentos específicos ligados a intelectualidade. Na tradição do Yoga a falta de sabedoria está ligada a ausência de conhecimentos que conduzem o indivíduo à percepção de sua verdadeira natureza.

 

Ou seja, através de práticas que cultivam o autoconhecimento deixamos gradualmente de ser regidos por māyā (ilusão) e começamos a adquirir a lucidez necessária para que seja possível enxergar a realidade tal como ela é.

 

Proponho agora um esboço sobre duas possíveis etapas deste processo de auto investigação e expansão da consciência que possui o poder de dissipar os véus da ignorância:

 

  1. A percepção de que os espelho esta embaçado/sujo. Trata-se de um primeiro momento, no qual o indivíduo se dá conta de que o seu olhar sobre a realidade está nebuloso. Nesta etapa, pensamentos palavras e ações que antes eram regidos por automatismos e superficialidades passam a receber gradativamente a luz reflexiva da consciência.  Este ponto é um tanto quanto imprevisível, pois este “choque de realidade” pode fazer com a pessoa oscile entre a dor e o prazer, o desanimo e a revolta, a letargia e a agitação e é em meio a esse período repleto de questionamentos críticos que o indivíduo escolherá se alimentará as ilusões, ou iniciará o processo para dissipá-las. Trata-se de um momento tão importante quanto desafiador, pois é necessário humildade para reconhecer possíveis sombras e coragem para transmutá-las.

  2. O início da limpeza do espelho. No Yoga Sutras é dito que o caminho para dissolver a ignorância é o cultivo de viveka (discernimento).  Patanjali apresenta então 8 etapas para se praticar este caminho (aṣṭāṅga-Yoga):

I e II – As duas primeiras etapas deste sistema são: Yamas (refreamentos - atitudes externas) e Niyamas (observâncias - atitudes internas). Tratam-se de princípios universais que constituem o alicerce da prática do Yoga, na medida em que estimulam o praticante a observar seus pensamentos, emoções, palavras e ações, de forma a criar um campo de harmonia em seu mundo interno e externo.

III - Com os princípios universais integrados o praticante pode passar para a terceira etapa: āsana (postura), neste ponto o indivíduo aguça a sua consciência corporal, através de posturas estáveis e confortáveis que vão gradualmente equilibrando o corpo e conduzindo a um estado de estabilidade mental. 

IV - A quarta etapa chama-se Prāṇāyāma (técnicas respiratórias). Nesta fase, o praticante desenvolve a sua consciência respiratória adquirindo controle sobre o prana (energia vital).

V - Na quinta etapa, o praticante adentra no campo de Pratyāhāra (abstração das distrações externas). Neste momento o indivíduo experimenta um estado, no qual as distrações sensoriais externas não mais interferem em seu equilíbrio interno. 

VI - A sexta etapa chama-se Dhāraṇā (concentração). Nesta fase, o praticante desenvolve a capacidade de se concentrar em um determinado ponto sem perder o seu foco.

VII - Na sétima etapa, Dhyāna (meditação), o praticante demonstra um estado de clareza e estabilidade mental, no qual as capacidades de abstração e concentração estão consolidadas, o que gera uma condição de equanimidade.

VIII - A última etapa é Samādhi (integração). Um estado de comunhão em que o praticante se estabelece em sua verdadeira natureza rumo à libertação das ilusões e sofrimentos provenientes da existência mundana.

           

Atualmente, a maneira mais utilizada de se praticar Yoga no ocidente se faz através de práticas corporais que de alguma forma são baseadas no Hatha Yoga, uma tradição proveniente do tantra que enxerga o corpo como instrumento de crescimento espiritual. A metodologia do Hatha está fundamentada em técnicas psicofísicas que, gradualmente, tornam o praticante apto a vivenciar experiências mais sutis, relacionadas à meditação e à transcendência.

 

Infelizmente, é nítido nos dias de hoje que muitas práticas que levam o sobrenome “yoga” estão muito mais a propagar as ilusões do ego do que promover um legítimo processo de autoconhecimento.

 

Também é fato que a esmagadora maioria das pessoas que buscam práticas de yoga estão muito mais interessadas em aproveitar os maravilhosos efeitos colaterais que esta prática proporciona para a saúde humana (leia mais sobre esses efeitos aqui), do que permitir que o Yoga seja instrumento para dissipar ilusões e remover a ignorância. E é bom lembrar que não há nada de mal em aproveitar todos os benefícios psicofísicos que esta tradição proporciona, trata-se de uma bela porta de entrada para esta prática que vem agraciando a humanidade ao longo de centenas de anos com preciosos conhecimentos que essencialmente conduzem à iluminação e à libertação.

 

Enfim, se dar conta da nossa própria ignorância e das consequentes ilusões (autocriadas) em que estamos inseridos, bem como a escolha por iniciar o processo de dissipá-las, pode ser o princípio de um caminho árduo, porém necessário para o buscador sincero. A limpeza do espelho exige disciplina e disposição amorosa!  

 

Como anda a sua percepção da realidade (interna e externa)? Como está a sua disposição em limpar o espelho da sua consciência?

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