MAHA DEVI, A PRIMEIRA QUE BRILHOU

            por Priscila Camargo Jacewicz

 

               O presente artigo pretende apresentar ligeiramente os aspectos de transformação do princípio feminino da Maha Devi, a Grande Deusa, nas vertentes espirituais da Índia.

De uma deidade que figurava na maioria dos achados arqueológicos dos primeiros povoamentos formadores da nação hindu, passando a assumir o poder absoluto na religião Śākta e compartilhando esse poder com o princípio masculino no Tantra, a Deusa parece ter jamais deixado de olhar por seus filhos e filhas.

           

            Tal reflexão sobre a Grande Mãe é imperativa, uma vez que a humanidade se encontra muito longe de honrar o princípio feminino nas mulheres e menos ainda no íntimo de cada homem. É sabido que civilizações que reverenciavam a Deusa sempre foram descritas como pacificas, respeitadoras da natureza, capazes de interagir de forma harmoniosa com os reinos animal, vegetal e mineral, seguindo os movimentos dos astros, das estações e dos seres.

           

               Entretanto, de tempos em tempos, as bases conceituais de uma cultura ou um povo se afastam do mundo natural e dos fundamentos biológicos a que estão sujeitos, fazendo com que os homens se esqueçam dos meios que lhes permitem a existência. Eventualmente, isso faz surgir um movimento cultural de volta às raízes da vida. Um retorno à matriz, ao local onde tudo é gerado e onde tudo é possível.

           

              Ao longo dos milênios da história humana no planeta Terra, é possível perceber que esse afastamento e seu subsequente retorno também podem ser entendidos, num nível mais amplo, como um ciclo. Tal ciclo pode ser observado nas artes, nas religiões, nas leis e assim por diante, de muitas civilizações do passado e do presente. Todavia, cada ciclo é diferente do anterior em algum aspecto. Há sempre algo de novo, de fresco, de revelador.

           

               Todas as culturas denominadas “pagãs” pelas religiões judaico-cristãs (sendo estas últimas patriarcais por excelência), apresentam registros de devoção às Deusas. Ritos Sumérios, Celtas, Eslavos, Nórdicos, Xamãs, Indígenas, etc., reconheciam e reconhecem a matéria[1] como ela realmente é: a matriz para a existência. Não é de surpreender que as árvores, montanhas, riachos e lagos sejam vistos como sagrados por essas culturas, pois são considerados o próprio corpo da Grande Mãe. Ainda hoje, por exemplo, o nome da Irlanda traz consigo essa íntima relação. Irlanda vem de “Éire Land”, Terra de Éire[2]. Éire ou Ériu é a deusa da soberania celta, e a ilha irlandesa é reconhecida como sendo o corpo da divindade, que fornece a vida a seus habitantes.

             

              No caso da Índia, apesar de uma vertente acreditar que a devoção à Grande Mãe Divina surgiu de forma paralela ao desenvolvimento da religião indiana principal (que enfatizava os deuses masculinos), registros arqueológicas ligam seu culto às origens dessa civilização. Suas primeiras evidências aparecem nos antigos povoamentos de Mohenjo-Daro e Harappa (2.600 a.C a 1.700 a.C), no que hoje é conhecido como Vale do Rio Indo-Sarasvati, no Paquistão (BIANCHINI, 2016 p. 25). Segundo Bianchini (2012, p. 79), foram encontradas nessa região “muitas estatuetas e desenhos de figuras femininas (e poucas de figuras masculinas), que parecem indicar o culto de uma deusa-mãe”. Aparentemente nessa época, a Mater Natura reinava absoluta no mundo, criando-o e o recriado a partir de seu próprio ser.

             

             Porém, com a organização dos Vedas (aproximadamente entre 2.000 a 1.200 a.C.), cujos textos davam mais valor aos deuses masculinos, e a elaboração do Código de Manu (entre 200 a.C. e 200 d.C.), o culto à Deusa foi aos poucos sendo suplantado. O Código de Manu, por exemplo, vinha a ser um manual que tratava da religião, da moral e das leis civis da Índia. Por meio dele, foi estabelecido o desigual sistema de castas, as mulheres foram relegadas a um lugar de submissão aos homens e, assim como nas demais culturas patriarcais, o feminino, o corpo físico, suas sensações e percepções, foram depreciados a ponto da matéria passar a ocupar um patamar inferior.

Mas, ao longo dos séculos, a energia da Grande Mãe Divina veio gentilmente reivindicando mais uma vez seu espaço na espiritualidade hindu. Há menos de dois mil anos a religião Śākta (Shaktismo) foi se organizando e, por meio de sua expressão no Devi Bhagavata Purana, Shakti[3] apareceu ocupando uma posição única e central como a realidade última (BIANCHINI, 2016 p. 25). Nos dez capítulos finais do Devi Bhagavata Purana, encontramos a Devi Gita, a Canção da Deusa. Neste texto, Shakti ensina a seus discípulos sobre a natureza da divindade, do mundo e do Atman, e os vários caminhos ou yogas que levam à união total com a Deusa e a consequente libertação. Aqui Shakti assume o seu poder absoluto sobre todos os outros deuses e sobre os homens (BIANCHINI, 2016 p. 191 - 196).

             

             Paralelamente, um movimento cultural denominado Tantrismo (século VI d.C.) emergiu, consolidando o poder da Devi dentro da religião Śākta e ao mesmo tempo transformando a percepção dos princípios masculino e feminino que até então existiam em outras linhas do Hinduísmo.

                Segundo Saraswati (2013, p. 3), “Tantra é a combinação de duas palavras, tanoti e trayati, que significam ‘expansão’ e ‘liberação’ respectivamente”.

Assim, o tantra propõe a expansão da consciência através de um caminho totalmente experiencial, no qual o sagrado e o mundano caminham de mãos dadas com passos firmes rumo à libertação dos véus que encobrem a nossa verdadeira natureza. Para o tantra todo o universo é a manifestação da interação entre Shiva (consciência pura, princípio masculino) e Shakti (energia primordial da criação, princípio feminino). Com base nesse pensamento, temos uma das características fundamentais do tantrismo: o culto à grande Deusa como uma manifestação suprema da Shakti. Isto é observado desde o respeito à natureza até a reverência a diferentes deidades femininas. Inclusive, no tantrismo cultiva-se a ideia de que toda a mulher merece ser reverenciada e respeitada como uma manifestação da Mãe Divina (fonte ilimitada da natureza criadora). (RODRIGUES, 2016)

            De acordo com Bianchini (2012, p. 79), apenas uma figura masculina, “provavelmente um protótipo de Shiva”, havia sido identificada nos achados arqueológicos dos primeiros povoados do Vale do Indo-Sarasvati. Todavia mais tarde, no Tantrismo, Shiva já é apresentado como contraparte de Shakti. Ele passa a ser reconhecido como representante do princípio masculino da consciência inativa, enquanto Shakti personifica a energia e o poder ativo do princípio feminino.

 

               Mas mesmo assim, 

embora Shiva seja um Deva muito poderoso, ele não é nada, comparado com a Shakti. Ela é ativa, ela tem todos os poderes, ele não tem nenhum poder sem ela. Por isso, muitas vezes ele é representado como um cadáver acima do qual Shakti dança, ou com o qual ela tem relações sexuais. Enquanto Shiva e Shakti estão separados, o universo é dinâmico, ele se transforma, está ativo. Quando Shiva e Shakti se unem e se fundem em uma unidade, toda multiplicidade desaparece, o tempo para. Shakti, o poder feminino, está presente, de acordo com o Tantra, em todas as coisas e todos os seres do universo – mas de forma mais forte e significativa nas mulheres. Da mesma forma, Shiva, seu complemento masculino, está presente também em todos os seres, mas especialmente nos homens. (MARTINS, 2016)

            Afinal, como afirma Vanamali (2008, p. 6), “Shakti é a energia cósmica, é a fisicalidade derradeira de todas as formas de matéria. A matéria não é nada mais, segundo a conclusão dos físicos modernos, que energia em movimento. Espírito e energia são inseparáveis. Eles são essencialmente um. São como fogo e calor”. Consequentemente, espírito e matéria (energia em movimento), consciência e energia, Shiva e Shakti, são duas faces de um mesmo fenômeno. Tal percepção propiciou avanços nos caminhos do yoga, no sentido de ampliar o conhecimento do homem sobre si mesmo e acerca do universo.

             No nível humano, enquanto Shiva, a consciência, é inerte e não pode ser ativada sem a presença de Shakti; o movimento da energia desta última, privada da sua relação com Shiva, não tem meios de desvelar a consciência pura. Por sua vez, a consciência pura sem a presença de Shakti, é como um cadáver imóvel que observa estarrecido as infinitas transformações do Samsara, sem qualquer controle sobre ele. Entretanto, quando a consciência se permite ser tocada pela energia ativa da Deusa e a união acontece, as dúvidas, a dualidade, as incertezas e o sofrimento sessam completamente. Sendo assim, para que o indivíduo finalmente atinja a libertação, ele precisa honrar ambos os aspectos do seu ser, o masculino e o feminino, e permitir que o Hieros Gamos[4] se realize.

 

         Podemos levantar aqui a hipótese de que talvez tenha sido necessária essa transição histórica entre os extremos das visões de mundo matrifocal e patriarcal para que, no novo ciclo de retorno da Deusa revelado pelo Tantrismo, os princípios feminino e masculino pudessem alcançar um status de equilíbrio. No Tantra, um não é sem o outro. Pois o fluir da vida e o devir da transcendência só são possíveis na relação entre Shiva e Shakti, entre o feminino e o masculino.

 

             O casamento místico entre Shiva e Shakti, apesar de ser o destino certo de todo e qualquer ser humano que já andou sob a luz desse mundo, ainda está longe da realidade da maioria das pessoas. São muitos os caminhos que levam ao despertar, mas os que realmente acordaram do sono da ilusão parecem ainda ser minoria. Entretanto, a Maha Devi, nossa Mãe Divina aguarda amorosamente pelo dia em que permitiremos sermos tocados por ela.

         É impossível imaginar qual será sua face daqui alguns anos, nem as suas formas de manifestação. Mas podemos confiar que ela nos ampara e protege a cada dia de nossas vidas. Pois ela é a própria carne desse mundo e nós somos porque ela é. Afinal, “ela é a primeira que brilhou; tendo entrado nos outros seres, ela se move por tudo”[5].

[1] Matéria: do latim “mater”, ou seja, “mãe”, “matriz”.

[2] SQUIRE, C. Mitos e lendas celtas: Rei Artur, deuses britânicos, deuses gaélicos e toda a tradição dos druidas. Rio de Janeiro: Nova Era, 2003. p. 107 -109.

[3] As três shaktis consortes dos deuses da Trimurti Hindu: Brama-Sarasvati, Shiva-Parvati e Vishnu-Lakshmi, são vistas como emanações de diferentes aspectos da grande Shakti. Por sua vez, a Maha Devi (Grande Deusa) Shakti é tida como superior aos deuses da Trimurti. Pois mesmo estes precisam do poder da Deusa para que seus atributos se manifestem.

[4] Hieros Gamos, do grego, significa “Casamento Sagrado”.

[5] Atharvaveda VIII.9.11, citado por BIANCHINI, Flávia. A grande deusa na Índia: uma breve história. Curitiba: Editora Prismas, 2016. p.50.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIANCHINI, Flávia. A grande deusa na Índia: uma breve história. Curitiba: Editora Prismas, 2016. 235 p.

BIANCHINI, Flávia. A origem da civilização indiana no vale do Indo-Sarasvati: teorias sobre a invasão ariana e suas críticas recentes. In: GNERRE, M. L. A.; POSSEBON, F. (orgs.) Cultura oriental: língua, filosofia e crença. Vol. 1. João Pessoa: Editora da UFPB, 2012.

 

MARTINS, Roberto de A. A grande deusa (Maha Devi). Disponível em: <http://www.shri-yoga-devi.org/shakti.html>. Acesso em: 25 nov. 2016.

 

RODRIGUES, Diego Cerqueira. O corpo no tantrismo: corpo universo, corpo sagrado, corpo diamante. Centro de Estudos e Práticas em Yoga, 2016. Disponível em: <http://www.cepy.com.br/o-corpo-no-tantrismo>. Acesso em: 15 fev. 2017

 

SARASWATI, Swami Satyananda. Asana pranayama mudra bhandha. Golden Jubilee Edition. Bihar: Yoga Publications Trust, 2013. p.3.

 

SQUIRE, Charles.  Mitos e lendas celtas: Rei Artur, deuses britânicos, deuses gaélicos e toda a tradição dos druidas. Rio de Janeiro: Nova Era, 2003. p. 107 - 109.

 

VANAMALI, Sri Devi Lila. Shakti: realm of the divine mother. Vermont: Inner Traditions, 2008. 369p.

*** Um pouco sobre a autora ***

Priscila Camargo Jacewicz foi aluna do Curso de Capacitação e Aprofundamento em Yoga do CEPY em 2016.

Além disso, é taróloga há mais de 15 anos e Terapeuta Energética há 10 anos. É graduada em Magia Celta, tem formação em Hatha Yoga (CEPY), em Educação em Valores Humanos (Instituto Sri Sathya Sai), em Magnified Healing e em Terapia de Vidas Passadas. Estudou Psicologia Budista e Transpessoal (Associação Brasileira de Psicologia Transpessoal) em Dharamsala-Índia e A Visão Transpessoal do Mundo/Enfoque na Mística Russa, Sibéria-Rússia. Elaborou e desenvolveu a capacitação Práticas Contemplativas no Ambiente Organizacional por dois anos na Prefeitura Municipal de Curitiba, tendo publicado artigo científico sobre o tema. É Bióloga (PUC/PR) e Artista Visual (EMBAP/UNESPAR). Frequentemente viaja à Europa para pesquisar sobre a simbologia e a mística das culturas pagãs Celta, Nórdica e Eslava e à Índia para se aperfeiçoar em cursos e iniciações. 

Atende e dá aulas no DARŚANA - Espaço Terapêutico: 

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