Imagem: Selo encontrado no Vale do Rio Indo datado de aproximadamente 3000 a.C.

Retrata Shiva como Pashupati: o senhor (protetor) dos animais.

O “criador” do Yoga era amigo dos animais.

por Vinicius Flores

Apresento aqui, uma breve reunião de conhecimentos acerca da imprescindível e habitualmente menosprezada, primeira parte do sistema organizado pelo sábio Patañjali. Esta primeira parte trata da dimensão ética e princípios de autocontrole, que deve ser abordada, estudada e vivenciada por aqueles que pretendem trilhar o caminho do Yoga.

Abordar este tema é necessário porque o Yoga no ocidente muitas vezes recebe uma simples forma de exercício físico, e é urgente porque a deficiência ética dos praticantes gera extremos sofrimentos a outros habitantes do planeta. A maioria dos profissionais do Yoga prefere não tocar no assunto que diz respeito ao sofrimento dos animais, ao respeito à vida, pois essa preocupação que os levaria a adotar uma postura vegana pode fazê-los perder alunos e serem vistos como radicais. Oberom (2014, p.23) aponta que muitos professores de Yoga legitimizam hábitos degradantes, por não terem domínio sobre eles e nos lembra de que, guru é aquele que remove a escuridão, para que haja evolução do aluno.

“O erro da ética até o momento tem sido a crença de que só se deva aplicar-se com relação aos homens”.

                                                                Albert Schweitzer

 

A filosofia vegana, que utiliza da compaixão ativa para abolir a escravidão animal, se iguala a filosofia do Yoga ao estender-se à sociedade, ao meio ambiente, à saúde e a ética, porém este breve trabalho dispõe-se a elucidar principalmente o aspecto da ética, pois é nessa dimensão que se dá o primeiro passo na senda do Yoga.

 

"O senso de humanidade com os animais inferiores é uma das virtudes mais nobres de que o homem é dotado, constituindo o estágio máximo no desenvolvimento dos sentidos morais. É somente quando nos preocupamos com todos os seres sensíveis que nossa moralidade atinge seu nível mais elevado."

Darwin

 

A exploração animal viola todos os passos propostos por Patañjali.

 

Então, construído o alicerce (yama e niyama), para o indivíduo desenvolver o discernimento (viveka) e adquirir clareza, Patañjali propõe como passo seguinte o asana, que são posturas psicofísicas, cujo sentido proposto pelo sábio, seria estar assentado de forma estável e confortável. [...]

Desse modo, o praticante está pronto para se sentar e trabalhar o controle da energia vital, o prana, por meio também de práticas respiratórias. (Oberom, 2014. p.137)

Yama destina-se a prover uma base moral adequada para o treinamento do Yogi, o próprio fato de ser colocado antes dos demais angas mostra seu caráter básico. (Taimni, 2011, p.166)

 

De acordo com Taimni (2011, p.166).

 

O uso da palavra angas, que significa “membros”, indica que as partes devem ser consideradas como correspondentes, mas não sequenciais; mas a maneira como Patañjali as abordou nos texto mostra que elas apresentam um certo relacionamento sequencial. Qualquer pessoa que examine cuidadosamente a natureza destas partes não pode deixar de ver que elas se correspondem entre si, de maneira definida, e seguem uma à outra, de modo natural, na ordem em que são citadas.  Portanto, na prática sistemática do Yoga mais elevado, elas devem ser consideradas no sentido de estágios, devendo ser respeitada, tanto quanto possível, a ordem em que são dadas.

 

Para Iyengar ( 2001, p.37)

 

Há um imenso equilíbrio a ser alcançado entre a vida filosófica e a vida prática. Se você conseguir aprender isso será um filosofo prático. Praticar filosofia pura não é um grande feito. Devemos trazer para o cotidiano a nossa filosofia, de tal modo que a vida, em todos seus prazeres e contratempos, possa ser instruída pela filosofia. Conseguiremos viver com êxito em sociedade sendo fiéis à nossa própria evolução e desenvolvimento, sem abrir mão de nosso caminho espiritual.

 

Ainda nas palavras de Iyengar ( 2001, p.37 )

“O Yoga se destina, antes de mais nada, ao crescimento individual, e é por meio do crescimento individual que sociedade e comunidade se desenvolvem (...) Ser vegetariano é a maneira de viver em harmonia com os animais e com o planeta.” 

 

A carne dos animais é como a carne de nossos próprios filhos. [...] Será preciso dizer que essas criaturas inocentes e saudáveis são dotadas de amor pela vida? Mas aqui são buscadas para serem abatidas por miseráveis pecadores dos matadouros? Por essa razão, ó monarca, ó Yudhishtira, sabei que a rejeição de carne é o mais alto refúgio da religião, do céu e da felicidade. Ahimsa é o mais importante dos princípios e também a maior das penitências. Ahimsa é também a verdade mais sublime dentre todas as provas de benevolência.

Mahabharata

 

Yogas citta-vritti-nirodhah – Yoga é a inibição das modificações da mente.

Segundo Taimni (2011) o objetivo dos preceitos éticos é eliminar as perturbações mentais e emocionais.  p.168

A media que essas perturbações continuem a afetar a mente, é inútil empreender a prática mais sistemática e avançada do Yoga. p.169

O autor esclarece que o principal objetivo desse código ético é eliminar as perturbações mentais e emocionais existentes na vida do ser humano comum, e conclui que com tais perturbações é inútil avançar no caminho do  Yoga.

 

Ódio, desonestidade, fraude, sensualidade e possessividade são alguns dos vícios comuns e inerentes à raça humana, e enquanto o ser humano estiver sujeito a esses vícios, seja em suas formas densas, seja em suas formas sutis, sua mente permanecerá vítima de distúrbios emocionais violentos ou dificilmente perceptíveis que, em última análise, tem suas principais origens nesses vícios. E, à medida que essas perturbações continuem a afetar a mente, é inútil empreender a prática mais sistemática e avançada do Yoga. (pag. 169)

 

Ahimsa - Não violência

Yoga Sutra , II-35)  Estando ( o yogi ) firmemente estabelecido na não-violência, deixa de existir hostilidade em ( sua ) presença.

           

Este princípio denota uma atitude com relação a todas as criaturas vivas, com base no reconhecimento da unidade da vida.

O grau mais sutil de não violência é a compreensão da não separatividade.

 

Somente fazendo o que é correto pode-se adquirir mais força para agir corretamente no futuro e também adquirir a capacidade de ver o que é correto. Não há outro caminho. Assim, o praticante que deseja se aperfeiçoar na prática de ahimsa descarta todas as considerações acadêmicas, mantém rigorosa vigilância sobre sua mente, suas emoções, suas palavras e seus atos e começa a ajustá-los a seu ideal. Pouco a pouco, à medida que ele consegue pôr em prática seu ideal, as crueldades e injustiças contidas em seus pensamentos, palavras e atos vão se revelando, sua visão tornando-se clara, e assim, sob quaisquer circunstâncias o modo de se conduzir corretamente será conhecido por intuição. De forma gradual, este ideal de inofensividade, aparentemente passivo, transformar-se-à  em uma positiva e dinâmica vida de amor, em seu aspecto de terna compaixão, em relação a todos os seres vivos e em sua forma prática, o servir. (Taimni, 2011, p.169,170)

 

Satya - Veracidade

O consumo de alimentos de origem animal envolve fingimentos e atitudes que não estão de acordo com o que se conhece por verdade.

           A mentira em todas suas formas, segundo Taimni (2011), praticamente interrompe o funcionamento da intuição ( buddhi ),  que é o único meio do yogi resolver problemas cuja a solução não se encontra no raciocínio. “Uma pessoa que começa a praticar o Yoga sem antes adquirir a virtude da completa veracidade é como um homem que parte para explorar uma floresta à noite, sem qualquer luz”. (p.170)

           

 

Asteya - Não roubar

Adquirir produtos provenientes da exploração animal é tomar parte em transações obscuras. Ao consumir leite de outras espécies, por exemplo, nos apropriamos daquilo que não nos pertence.

 

Brahmacarya – Continência

Um aspecto a ser levado em conta a respeito de brahmacarya, não se refere somente à abstinência sexual, mas ao libertar-se do anseio por todo tipo de prazeres sensuais. A procura por esses prazeres é tão comum em nossa vida e eles estão tão relacionados com a ideia de felicidade, que não existe sentimento de culpa quando os buscamos, mesmo que impliquem sofrimentos a muitas criaturas vivas. O problema está em ansiar pela repetição das experiências que envolvem sensações que causam prazer.

 

Aparigraha – Desapego.

Não-possessividade. Garantir um estado mental livre de apegos.

O apego ao prazer do paladar carregado de violência colabora com um total aproximado de 60 bilhões de animais terrestres e um trilhão de animais marinhos que são mortos a cada ano para o nosso consumo.

Oberom (2014) nos convida a perceber aparigraha no sentido do desapegar-se dos conceitos e justificativas que nos mantêm dentro do hábito de consumir elementos que geram sofrimento, ou seja, desapegar-se das desculpas que defendem nossa zona de conforto, a qual prejudica seres inocentes. (p.174)

 

Yoga Sutra, II-31 

Estes ( os cinco votos ) independem de classe, lugar, tempo ou ocasião, e, estendendo-se a todos os estágios, constituem o Grande Voto.

Este é o Grande Voto, em cuja observância não devem interferir fatores biológicos, nem físicos nem sociais ( tradução do Rohit Mehta )

Portanto é um voto que não admite justificativas.

A mente que inventa desculpas é imatura, no sentido de que não despertou um senso de responsabilidade. Rohit Mehta. p.164

 

A título de ilustração Taimni (2011) traz algumas situações hipotéticas:

Um amigo seu, que você sabe ser inocente, vai ser enforcado, mas pode ser salvo se disser uma mentira. Deveria você dizer a mentira? (Ocasião). Acúmulo de fortuna e sua devida distribuição é o dharma de um vaisya, de acordo com o varnasrma dharma. Deve um vaisya, que aspira ser um yogi, entretanto, atenuar seu voto com relação a aparigraha e continuar a acumular riqueza? (classe). Seu país está em guerra com outro. Você se alistaria no exército e concordaria em matar as pessoas da nacionalidade do inimigo, como se espera que você faça? (Tempo). Você tem que ir ao Ártico, região onde é necessário matar animais para conseguir alimento. Você estaria pronto a modificar seu voto quanto ahimsa, nas circunstâncias peculiares em que você se encontra?  (p.175,176)

 

     Segundo o autor, este sutra esclarece de forma clara que não são permitidas exceções na prática do Grande Voto e acrescenta:

 

Mesmo que a vida tenha que ser sacrificada na observância de seu voto, ele deve passar pela provação alegremente, na firme convicção de que o enorme influxo de energia espiritual que ocorre nessas situações compensa em muito a perda de uma simples vida. [...] Além disso, ele deve saber que em um universo governado pela Lei e baseado na Justiça, nenhum mal pode realmente acontecer à pessoa que tenta proceder de modo correto. (p.176)

           

            Cristiane Szynwelski, numa palestra gravada na Sociedade Teosófica no Brasil, em Brasília, em 08 de julho de 2017. Trata da moral no Yoga de Patañjali, à luz de Rohit Mehta e I. K. Taimni: “Quanto mais se aprofunda no autoconhecimento, mais aparecem essas questões cobrando. Não é possível atingir um estado de quietude mental com culpas no cartório [...] Do samsara não se sai com debito cármico.”

A palestrante elucida também que: “A moral nao leva a espiritualidade, como o conhecimento nao leva a sabedoria [...] Mas a moral serve como as pautas de uma folha, até que saibamos escrever em linha reta.”

 

“Assim, em tudo, façam aos outros o que voces querem que eles lhe façam; pois esta é a lei e os Profetas”.

Mateus 7:12

 

Lokah Samastah Sukhino Bhavanthu

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