O que esperar de uma “Formação” em Yoga

por Diego Cerqueira Rodrigues

 

Inicialmente, gostaria de registrar que o termo “formação” não me parece a expressão mais adequada para se vincular a uma tradição como o Yoga. Não se trata aqui de um preciosismo epistemológico, porém acredito que existem termos mais apropriados como Aprofundamento e Capacitação*.

*Capacitação no sentido de desenvolver algumas capacidades importantes dentro do caminho do Yoga.

 

Até que ponto não seria ingenuidade, ou mesmo uma incoerência, acreditar que a realização de um curso de curta duração com encontros espaçados é suficiente para formar professores aptos a transmitirem plenamente os ensinamentos milenares do Yoga?

 

Ao mesmo tempo, não é possível afirmar como uma verdade absoluta que isso não possa, em certa medida, acontecer. Afinal, existem dois fatores que são fundamentais para aqueles que escolheram trilhar verdadeiramente o caminho do Yoga e estão buscando cursos e ensinamentos que possam auxiliá-los neste sentido.

 

São eles:

  1. Os professores envolvidos no acompanhamento processual do aluno;

  2. A disposição e o comprometimento do aluno com o estudo e a prática do Yoga;

 

Tendo em vista estes aspectos, gostaria de propor aqui uma breve reflexão sobre formações em Yoga.

 

Primeiramente, é importante salientar que este modelo de formação é uma fórmula ocidental que basicamente busca atender as demandas de um sistema capitalista alimentado pela competição e produtividade. O que está acontecendo é que, infelizmente, diversos cursos de Yoga estão sendo contaminados por este modelo, no qual o certificado e o status são mais importantes do que as experiências e o conhecimento.

 

Por exemplo, de forma recorrente me deparo com algumas perguntas do tipo “Ao final do curso poderei dar aulas?” ou “Este curso é voltado para formar professores, ou é só para autoconhecimento mesmo?”

E que fique bem claro que não há nada de "errado" com quem realiza tais questionamentos, entretanto, a recorrência de tais perguntas me fazem refletir sobre uma possível contaminação dos cursos de Yoga por uma visão mercadológica e imediatista.

É muito comum que atualmente as pessoas busquem a prática do Yoga pelos mais variados motivos, como melhorias na saúde, desenvolvimento de algumas capacidades físicas, aprimoramento da respiração, relaxamento, concentração, enfim, os objetivos são muitos e variados, que vão dos mais superficiais aos mais profundos. Entretanto, tenho observado que as pessoas que se permitem serem verdadeiramente tocadas pelo Yoga são naturalmente conduzidas para um processo de autoconhecimento.

Autoconhecimento, de acordo com a visão do Yoga, é o processo de dissolver a ignorância sobre si mesmo, na medida em que o indivíduo se liberta de seus próprios condicionamentos / identificações e desenvolve um estado de equanimidade mental (samatvam yoga ucyate - Bhagavad Gita 2.48).

Patanjali, em seu Yoga Sutras, diz que o sujeito que atinge tal estado, o qual podemos chamar de Yoga, se estabelece em sua verdadeira natureza.

Sendo assim, Yoga é a meta final do caminho do sadhaka (praticante) e, ao mesmo tempo, o processo e as estratégias utilizadas (desde que estejam essencialmente alinhadas) para se atingir tal meta.

Atualmente, a forma mais conhecida para se trilhar a senda do Yoga é o Hatha. Pretendo em um próximo artigo abordar mais profundamente a tradição do Hatha Yoga. Por ora, é importante ter em mente que esta vertente proveniente do Tantra busca desenvolver e sistematizar diversas técnicas psicofísicas que gradualmente tornam o praticante apto a experienciar aspectos mais sutis do Yoga.

Com o estabelecimento do Yoga no Ocidente diversas linhas foram sendo criadas “baseadas no Hatha Yoga” algumas com adaptações coerentes à sociedade que temos hoje, outras (invariavelmente aquelas que buscam atender “as demandas do mercado”) totalmente distantes da essência desta tradição.

Enfim, tendo em vista este contexto, consequentemente o Hatha Yoga se tornou um dos principais fundamentos do currículo dos cursos de formação/capacitação/aprofundamento em Yoga (desde que o curso não aborde alguma outra linha específica).

De fato, iniciar a prática com os aspectos mais tangíveis do Yoga, ou seja, a prática corporal, faz com que as transformações (que vão do denso ao sutil) sejam mais perceptíveis. É um ótimo ponto de partida! Porém, se o praticante está buscando se aprofundar e está utilizando como estratégia a realização de cursos, é importante investigar se estes cursos apresentam os aspectos essenciais do Yoga, ou se estão estruturados levando-se em conta questões estéticas, modismos ou qualquer outro tipo de superficialidade.

O que seriam então estes aspectos essenciais a um bom curso de Yoga?

- Apresentação do contexto sócio histórico em que se originou o Yoga e a sua trajetória ao longo dos anos;

- Apresentação dos aspectos filosóficos baseados em textos clássicos e fundamentais do Yoga, como Bhagavad Gita, Yoga Sutras, Textos Clássicos do Hatha Yoga (Hatha Yoga Pradipika, Gheranda Samhita, Goraksha Shataka, Shiva Samhita), além de outras escolas de pensamento que de alguma forma influenciaram o Yoga como o Samkhya e o Vedanta;

- Introdução ao sânscrito;

- Se a base prática do curso for o Hatha Yoga é importante que sejam apresentadas a maior parte das técnicas psicofísicas descritas nos textos clássicos (asanas, kriyas, bandhas, mudras, mantras, pranayamas e técnicas de relaxamento e meditação);

- E para entender de onde surgiram estas técnicas todas, um estudo sobre o Tantrismo é fundamental;

- Anatomia, Fisiologia e Cinesiologia (estrutura, funcionamento e estudo do movimento do corpo humano), tanto o aspecto físico como o sutil (chakras, nadis e vayus);

- Apresentação de outros conhecimentos que em alguma medida se aproximam do Yoga como o Ayurveda e a Psicologia;

- Algumas adaptações coerentes como a apresentação de aspectos terapêuticos e pedagógicos;

- Além disso, pesquise sobre os professores, é importante que eles sejam estudiosos e praticantes experientes dos conteúdos que irão lecionar;

- Observe os preços, por mais que os professores envolvidos sejam "famosos", para mim é mais um indício de incoerência com o Yoga os valores extratosféricos que são cobrados em alguns cursos hoje em dia;

- Apesar de ser um papel de relativa importância nos dias atuais, não se apegue tanto ao certificado, afinal, essa história de certificados internacionais, ou validados pelo conselho/associação/aliança X, Y ou Z não faz tanta diferença assim, já que o Yoga não é uma profissão regulamentada ou regulada oficialmente por qualquer órgão público ou privado.  

- Além do conteúdo, é importante que o curso apresente uma boa carga horária e incentive que cada participante se responsabilize pelo próprio aprendizado ao criar disciplina para  manter uma prática pessoal. Ao final do curso, é importante que se mantenham encontros regulares de estudo e prática, pois para assimilar uma tradição de mais de 5 mil anos, uma vida inteira pode não ser suficiente.

Claramente eu não possuo aptidão para escrever textos marqueteiros do tipo: “7 dicas para escolher um bom curso de formação”. Porém, espero que as reflexões propostas ao longo do presente texto possam contribuir para todos aqueles que estão em busca de aprofundar seus conhecimentos na senda do Yoga.

 

Aprofundar-se nos conhecimentos do Yoga é uma preciosa possibilidade de se aprofundar em si mesmo. Pode ser uma experiência transformadora e libertadora - desde que você não se apegue a este objetivo.

E lembre-se: se você encontrar cursos com propagandas mercadológicas repletas de promessas e garantia de resultados, desconfie. Ninguém tem o poder de afirmar com antecedência que você se tornará um “professor formado em Yoga”. Pois, por mais que o curso tenha uma ótima grade curricular e grandes professores, o maior responsável pelo seu próprio aprendizado e aprimoramento é você mesma(o).

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