Qual É o Yoga da Moda?

por Diego Cerqueira Rodrigues

 

* Nota do autor: A princípio este seria um texto simples com algumas impressões sobre a reportagem do Esporte Espetacular sobre Yoga, entretanto, ao longo das linhas o texto foi se tornando um breve artigo que apresenta uma reflexão sobre o cenário contemporâneo do Yoga

Nos últimos três dias precisei responder de forma recorrente a mesma pergunta: 
“Você viu a reportagem do Esporte Espetacular sobre ‘Yoga’ com a Fernanda Lima?”
Após responder negativamente por diversas vezes resolvi enfim procurar a tal reportagem...
Bom, agora que já suportei os quase 30 min que compõe a matéria, compartilho com vocês algumas impressões e reflexões:

 

Lembrando que a ideia aqui não é criticar as pessoas envolvidas na matéria (jornalistas, apresentadores, celebridades), nem o método de yoga apresentado e nem a instituição que a produziu (mesmo sendo a Globo merecedora de todas as críticas do mundo).

Enfim, prefiro direcionar a minha reflexão crítica a alguns conceitos errôneos sobre o Yoga que aparecem em quantidade assustadora ao longo da matéria.

 

Primeiramente, tudo bem realizarem uma reportagem sobre Yoga em um programa de variedades esportivas, agora caracterizar o Yoga como Esporte já é demais, não acham?

Nada contra o esporte, eu mesmo fui praticante por muitos anos de várias modalidades esportivas (o que sempre me fez muito bem), mas como diz o filósofo: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. E ver o Yoga sendo apresentado com uma atmosfera de alta performance e competitividade é no mínimo de arrepiar.

 

Ao longo da reportagem fica clara a tentativa de associar ao Yoga a lógica do quanto mais extremo melhor, quanto mais difícil melhor, quanto maior o grau de periculosidade melhor, quanto maior a produtividade num curto espaço de tempo melhor, quanto mais, mais e mais melhor...

Essa lógica pode funcionar para muita coisa nesse nosso Sistema maluco, porém, quando falamos de Yoga essa mentalidade não faz o menor sentido.

 

Aliás, tendo em vista a forma como nos organizamos em sociedade hoje em dia, o Yoga chega a ser uma forma subversiva de enxergar e viver a vida, uma vez que:
- Inspira a aproximação da essência, bem como o desinteresse pelo supérfluo;

- A afinidade pela simplicidade, bem como o afastamento da soberba;

- O cultivo da contemplação, bem como a desaceleração do consumismo e da produtividade desenfreada;

- O desenvolvimento de um olhar interno compassivo e lúcido, bem como a despreocupação com os olhares externos que julgam, comparam e competem;

- A elevação da consciência individual, social, ambiental e espiritual, bem como a diminuição da alienação;

 

Não se trata aqui de defender um tradicionalismo rígido e conservador, mas sim enxergar o Yoga em sua plenitude, tendo como base o seu propósito, que é a libertação de todas as limitações e sofrimentos causados por nossa própria ignorância.

 

Lembrando que o Yoga é uma tradição milenar proveniente de uma cultura muito distante que, felizmente, sobreviveu ao tempo e as profundas transformações pelas quais o mundo passou. Então, ao mesmo tempo em que o precioso conhecimento essencial do Yoga se manteve vivo até aqui, temos como decorrência de sua globalização neste “mundo louco”, uma avalanche de deturpações que aumenta ano após ano.

 

É possível constatar que a maior parte das distorções acontecem “inspiradas” no Hatha Yoga - conhecimento prático que surgiu a partir do Tantra, no qual existe o entendimento do corpo enquanto um instrumento sagrado de manifestação plena do ser humano. É uma tradição que surgiu há vários séculos, na qual foram desenvolvidas técnicas psicofísicas com o objetivo de devolver ao indivíduo o seu equilíbrio natural e possibilitar a expressão plena de seu Dharma (propósito).  

 

*** É importante salientar que baseado no Hatha Yoga surgiram também métodos muito interessantes, sistematizados por professores dedicados e estudiosos. Estes métodos originaram uma sucessiva geração de professores, alguns comprometidos em transmitir seus conhecimentos de forma séria e criteriosa, outros nem tanto. ***

 

Porém, o que tenho percebido acontecer é o seguinte: uma criatura com algum conhecimento sobre Yoga e sobre o lucrativo “mercado new age” resolve criar uma metodologia bizarra que provavelmente vai prometer efeitos muito positivos para a “saúde e bem estar”. Em seguida, o visionário, ao invés de batizar a sua técnica com um nome criativo qualquer, tem a brilhante ideia de colocar o termo yoga como o sobrenome de sua bizarrice! E assim nasce os “yoga” com cerveja e outras drogas, o yoga com animais de estimação, yoga na água, na sauna, etc...

 

“Ah, mas você não acha que o Yoga deva se adaptar às pessoas e ao mundo contemporâneo?”

Eu acredito que são as pessoas que deveriam ir gradualmente se adaptando ao que o Yoga se propõe e não o contrário! É claro que pequenas adaptações (desde que coerentes) são importantes, aliás o simples fato de eu estar escrevendo sobre Yoga em um computador para centenas de pessoas já é uma adaptação aos nossos tempos.

 

Infelizmente esperar coerência e bom senso no contexto atual em que vigora os véus da ilusão e da “egoesclerose” talvez seja esperar demais...

ps. E se você já é um praticante, ou possui interesse em iniciar com a prática de Yoga, seja criterioso em sua escolha! Não por que "pode ser uma prática muito perigosa com riscos de graves lesões" como é enfatizado na reportagem da globo, mas sim pelo fato de ter por aí muita ginástica com tempero pseudo-indiano sendo vendida como Yoga (a não ser que esta seja uma escolha consciente sua, então tudo certo) .

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