Os Efeitos Colaterais do Yoga

por Diego Cerqueira Rodrigues

Você provavelmente já deve ter ouvido falar dos famosos benefícios que a prática do Yoga pode proporcionar, pois, cada vez mais, a ciência, a mídia e o tradicional boca-a-boca estão tornando-os mais conhecidos.  A maioria dos instrutores e praticantes mais experientes têm uma extensa lista destes benefícios na ponta da língua para oferecer prontamente a quem desejar.

É frequente receber em minhas aulas pessoas que foram encaminhadas por profissionais da saúde que “receitaram” a prática do Yoga aos seus pacientes, no intuito de auxiliar na cura de algum desequilíbrio. E, pensando bem, nesta sociedade em que vivemos o que não faltam são motivos para que diferentes tipos de desequilíbrios se manifestem...

E é devido a esta sociedade doente que pouco a pouco vamos caindo na armadilha de “alopatizar” o Yoga. Nesse processo, todo o potencial desta tradição milenar é reduzido e compartimentado em pequenas pílulas que irão atuar contra dores nas costas, insônia, estresse, distúrbios respiratórios, distúrbios posturais, distúrbios hormonais, enxaqueca, ansiedade, depressão, déficit de atenção, etc, etc e etc...

Não estou dizendo aqui que eu não reconheça e admire o valor terapêutico do Yoga, muito pelo contrário, é maravilhoso que a prática coerente e sistematizada de Yoga influencie positivamente em uma infinidade de distúrbios psicofísicos. Costumo brincar que, felizmente, a prática do Yoga apresenta uma série de efeitos colaterais muito positivos para a saúde humana.

E é este termo que utilizarei neste texto para fazer referência aos diversos benefícios psicofísicos do Yoga: EFEITOS COLATERAIS!

 

E que fique bem claro: não há problema algum se você (assim como eu) buscou a prática de Yoga com o intuito de se beneficiar de tais efeitos colaterais, esta é a realidade da grande maioria. Se o objetivo do Yoga fosse “apenas” a promoção de saúde e bem-estar, já seria por si só um instrumento fantástico!

 

Desta forma, qual seria então a meta primordial por traz das diferentes práticas essenciais de Yoga, para além de seus efeitos colaterais?

O que de tão especial existe nesta tradição que a fez sobreviver milênios e chegar tão atual aos nossos dias?

 

Para responder estas perguntas irei recorrer ao sábio Patanjali (um dos maiores personagens históricos do Yoga), ele nos apresenta em sua obra - Yoga Sutras - o que acontece com o praticante que se estabelece na prática de Yoga:

 

tadā draṣtuh svraūpe 'vasthānam |Y.S. 1.3|

Então (no estado de Yoga), o indivíduo se estabelece em sua verdadeira natureza.

Ou seja, após definir o Yoga como um estado no qual existe uma condição de estabilidade mental, Patanjali nos apresenta neste sutra a consequência deste estado: a assimilação completa, por parte do praticante, de sua natureza essencial que é plenitude. Neste estado o indivíduo se emancipa de todas as limitações causadas por sua própria ignorância, atingindo então o objetivo final do Yoga: Moksha (a libertação).

 

Ao longo da nossa história, através de diversas experiências pessoais, sociais, educacionais, profissionais, enfim, nossas multirelações consigo mesmo, com os outros e com o meio, vamos criando uma série de condicionamentos, paradigmas e crenças que gradualmente vão moldando camadas que podem limitar a percepção e a expressão de nossa real natureza. Costumo dizer que a busca pelo Yoga, se torna (mesmo que inconsciente) um desejo de reaproximação deste estado natural de plenitude, o qual fomos nos distanciando.

 

O indivíduo que começa a se aprofundar na prática de Yoga inevitavelmente será conduzido por um caminho de autoconhecimento que o fará entrar em contato com diversos aspectos do seu Ser, seja luz, ou seja sombra.

Aquela sensação “gostosinha” que muitas vezes experimentamos durante e após as aulas, eventualmente, poderá ser substituída por alguma inquietação ou mesmo choques de realidade frutos de uma mente mais estável e uma visão mais lúcida sobre a vida como um todo.

 

Neste processo, somos desafiados a assimilar mais um importante aprendizado no caminho do Yoga: a equanimidade frente a situações que podem gerar apego (rāga) e/ou aversão (dveṣa).

Krshna nos apresenta este ensinamento na Gita quando diz:

samatvam yoga ucyate – (Cap. II – 48)

Yoga é equanimidade.

 

Quando cultivamos uma atitude equânime, a vida se torna naturalmente mais leve, abandonamos o aprisionamento das grandes expectativas, deixamos de culpar os outros e o mundo por nossas próprias frustrações e assumimos a responsabilidade sobre nossas próprias vidas. Trata-se de um processo empoderador e libertador.

 

Ao aguçarmos nossa compreensão sobre o real propósito da prática do Yoga podemos, inclusive, aproveitar os maravilhosos efeitos colaterais que esta prática proporciona de forma mais plena e autêntica, porém, conscientes que é possível ir muito além deles!

Boa prática!

ॐ शान्ति (om śānti)

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