Os Obstáculos no Caminho do Yoga

Ensaio sobre "a Coisa"

por Diego Cerqueira Rodrigues

*** Ah, mas hoje está muito frio! *** Ah, mas hoje está muito calor! *** Ah, mas hoje está chovendo! *** Ah, hoje estou cansado! *** Ah, hoje preciso trabalhar um pouco mais. *** Ah, só mais um capítulo desta série incrível! *** Ah, acho que isso não é pra mim! *** Ah, prefiro o mundo virtual. *** Ah, eu desisto! *** Acho que o universo está conspirando para eu não praticar! ***

 

            Um dos grandes professores que encontrei no Kaivalyadhama College of Yoga (Índia), em sua maneira firme e amorosa de transmitir seus ensinamentos, costumava dizer:

“Você com certeza encontrará milhares de desculpas para não praticar, mas para praticar você precisa de apenas uma coisa: VONTADE”.

           Não sei se essa franqueza que é peculiar em alguns dos ótimos professores de Yoga que encontrei pela Índia faria muito sucesso por aqui. Afinal, é muito mais agradável ter um instrutor que diga, de uma forma carinhosa e num tom de voz adequado, exatamente aquilo que desejamos ouvir.

         Parafraseando o poeta sufi Rumi: ‘Para além da zona de conforto existe um campo, eu me encontrarei com você lá’. Obviamente, ninguém deseja viver em uma “zona de desconforto”, a questão aqui não é o conforto em si, mas sim a forma como nos relacionamos com os desafios e obstáculos que surgem em nossos caminhos. E nesse ponto o Yoga pode ser de grande valia para encontrarmos um ponto de equilíbrio, no qual dissolve-se o medo de caminhar, porém, com o discernimento necessário para distinguir o momento adequado de seguir e/ou parar e/ou voltar e/ou mudar de rumo.

         Esse medo que acompanha muitas pessoas pode ser fruto de uma infinidade de fatores. Entretanto, ao meu ver, está relacionado essencialmente com o desconhecimento da potencialidade que está presente em cada indivíduo, ou seja, uma espécie de distanciamento de sua real natureza, que é plena e livre de limitações.

      Um outro sintoma deste “medo” é o desenvolvimento de um processo de “auto sabotagem”, que, no meu entendimento, trata-se da ausência de um alinhamento com a verdade/honestidade. Aliás, no caminho do yoga, a verdade ou veracidade é um dos valores que fundamentam a prática desta tradição milenar. O termo sânscrito para este princípio é satya. Na senda do Yoga a prática de satya está sustentada por um princípio que considero um dos grandes pilares do Yoga: ahimsa (não-violência). Assim, o praticante de yoga estabelece um compromisso com a prática da verdade sustentado pelo princípio da não-agressão.

          Se eu identifico quais são os conhecimentos/práticas que me aproximam da verdade (ou natureza essencial) posso me mobilizar e criar as condições necessárias para seguir este caminho. Ou seja, se estamos engajados com a verdade é muito mais provável que seja possível identificar as disciplinas necessárias para estarmos alinhados ao nosso dharma (propósito). E se estamos alinhados ao dharma, não existe espaço para auto sabotagem, mentiras ou ilusões.  

         O fato é que, se não há firmeza de propósito, torna-se muito tentador sucumbir aos diversos obstáculos e distrações que surgem em nosso caminho evolutivo e que tornam o caminhar truncado e penoso. Muitas vezes permitimos que esta força contrária se desenvolva a tal ponto que ela se torna palpável (seja como uma doença, um acidente, etc...).

         Nomearei esta força que muitas vezes nos afasta do nosso verdadeiro propósito de vida de  “COISA”, ou melhor, “a coisa”.

*** depois de iniciado este artigo, descobri que o professor Hermógenes já havia utilizado este termo com um sentido parecido com o que abordo neste texto. Assim, deixo minha reverência a este grande professor, que provavelmente captou antes de mim esta ideia dos “registros akashicos” ***

 

          Conceber que a vida é feita de escolhas não é algo tão complicado assim, e isso é maravilhoso para que possamos iniciar um processo de responsabilização por nossas próprias vidas! O problema é que, devido a ausência de clareza mental, muitas vezes nossas escolhas se tornam inconscientes e/ou estruturadas a partir de um estado de ignorância. Uma dessas escolhas é a permissão para que a atuação da "coisa” comece a crescer e se apoderar de nosso padrão mental, emoções e ações. Neste contexto, os obstáculos do caminho se tornam muito maiores do que realmente são e a nossa força e disposição para encará-los tornam-se proporcionalmente menores.

      Patanjali, o principal sistematizador do Yoga, apresentou em sua obra (Yoga Sutras) uma síntese dos principais obstáculos que impedem o indivíduo de manifestar clareza mental e, consequentemente, enxergar suas reais potencialidades:

 

vyādhi-styāna-saṃśaya-pramādālasyā-virati-bhrānti-darśanālabdhabhūmi-katvānavasthitatvāni citta-vikṣepās te 'ntarāyāḥ (I-30)

Doença, languidez, dúvida, negligência, preguiça, mundanalidade, ilusão, fracasso constante, instabilidade, estes (nove) causam a distração da mente e são os obstáculos. 

 

 

Destes nove obstáculos eu vou me ater, neste artigo, a três: 

 

  1. Saṃśaya (dúvida ou medo)

  2. Pramāda (negligência)

  3. Alasyā (preguiça)

 

1 - Já dizia Aristóteles: “A dúvida é o princípio da sabedoria”. Ok, não é deste tipo de dúvida que estamos falando aqui. Neste caso, o filósofo grego trata a dúvida como um processo fruto de investigação / questionamento que, consequentemente, conduz ao conhecimento. No caso de Patanjali, saṃśaya apresenta o sentido de ausência de confiança, uma espécie de pessimismo que escurece o olhar do indivíduo. Como consequência, o sujeito deixa de enxergar suas próprias potencialidades e as diversas possibilidades de crescimento que existem em cada situação. Para dissolver este estado de saṃśaya é importante desenvolver: 1 – autoconfiança; 2 – confiança no caminho escolhido para o seu autodesenvolvimento. As incertezas vão existir - e são bem-vindas - desde que elas funcionem como propulsoras para o (auto)conhecimento.

 

2 - Recorremos agora a Confúcio: “Não são as más ervas que sufocam a semente, mas sim a negligência do cultivador”. Negligência é a ausência de um estado de atenção plena, no qual deixamos de fazer aquilo que sabemos que nos é benéfico e/ou fazemos aquilo que sabemos que não irá trazer benefício algum (a não ser um breve e passageiro estado de satisfação ou prazer). Por exemplo: sei que a prática de Yoga me proporciona uma série de benefícios, mesmo assim na primeira oportunidade deixo de praticar (alguns exemplos de desculpas estão no início do texto). A negligência torna as pessoas medíocres e descuidadas consigo mesmas e com a realidade ao seu redor.

 

3 - Quem aqui nunca sentiu preguiça?  Aposto que até Patanjali sentia preguiça!

A preguiça se torna um fator limitante quando nos tornamos escravos dela. Neste caso, a preguiça nos conduz ao campo da estagnação, no qual existe apenas os resquícios do que podemos chamar de vida. Entretanto, se nos colocamos a serviço da vida, se nos abrimos e nos disponibilizamos a vivenciar plenamente cada situação, é muito provável que encontremos uma fonte inesgotável de entusiasmo. Para dissolver a preguiça (e a negligência) é necessário desenvolver firmeza de propósito, de forma que pensamentos, palavras e ações estejam alinhados e conduzam a experiências significativas.

 

     A intenção deste artigo não é de forma alguma subestimar os obstáculos no caminho dos outros, ou julgar a dor alheia. Afinal, cada indivíduo é um universo cultural repleto de histórias singulares que merece ser enxergado (e cuidado) também de forma individual. A proposta principal foi de apresentar aqui, de forma breve, as possíveis raízes desta força contrária (a coisa) que muitas vezes nos impede de enxergar nossa verdadeira natureza e manifestar plenamente nossas potencialidades. Ao nos darmos conta desta realidade iniciamos, consequentemente, um processo de nos tornamos mais forte do que nossas supostas fraquezas.

 

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