Yamas e Niyamas

 

por Diego Cerqueira Rodrigues

 

 

Na literatura contemporânea, existe uma extensa quantidade de obras relacionadas aos conhecimentos do Yoga. Entretanto, é possível afirmar que grande parte dos estudos comprometidos com a essência do Yoga possuem suas origens (mesmo que indiretamente) no Yoga Sutras, obra atribuída ao sábio Patañjali. O texto é composto por 196 aforismos (sentenças breves e conceituosas). A data de criação desta obra fundamental, bem como o período de permanência de Patañjali na terra, é incerta. Porém, alguns indícios apontam para um período entre 200 a.C. e 200 d.C.

 

A obra Yoga Sutras pode ser considerada a primeira grande sistematização dos diversos conhecimentos do Yoga. O texto é dividido em quatro capítulos: Samādhi Pāda (sobre a conceitualização), Sādhana Pāda (sobre os caminhos), Vibhūti Pāda (sobre os poderes) e Kaivalya Pāda (sobre a libertação). Este conjunto propõe um caminho que, se seguido fielmente, conduz o praticante de Yoga à libertação do sofrimento e união com o divino.

 

O foco deste pequeno artigo estará concentrado no segundo capítulo: relacionado à prática que leva ao estado meditativo e os obstáculos que podem ser encontrados ao longo do caminho. Neste capitulo, são descritos os Yamas e Niyamas, princípios universais que fundamentam a prática de Yoga.

“Estas normas de conduta não estão restritas a casta, lugar, tempo ou circunstâncias.” Y.S.II 31

 

Yamas (Auto restrições, condutas de como se relacionar com o mundo externo)

1. Ahimsa (não-violência)

Ahimsā-pratiṣṭhāyāṃ tat-samnidhau vairatyāgah ।।35।।

Trad.:Quando se está firme no caminho da não-violência toda a hostilidade desaparece em sua presença.

A conduta de um praticante atento e consciente de Yoga reflete em não agredir nenhuma criatura viva através de suas ações, palavras e pensamentos. O yogi desenvolve um olhar compassivo sobre si mesmo e a realidade ao seu redor, pois enxerga todos os seres como verdadeiras expressões de uma mesma natureza primordial.

2. Satya (verdade / veracidade)

Satya-pratiṣṭhāyāṃ kṛiyā-phalāśrayamtvaṃ ।।36।।

Trad.: Para aquele que esta estabelecido em satya ou veracidade, a própria ação é sua recompensa.

Ser verdadeiro com os outros e acima de tudo consigo mesmo. Isso possibilita que o praticante de Yoga seja coerente com o caminho de autoconhecimento que está trilhando, pois existe harmonia em seus pensamentos, palavras e ações. Por não ter que sustentar nenhum tipo de falsidade, o yogi mantém a sua mente serena, possibilitando então a sua manifestação em plenitude, pois enxerga a realidade sem os véus da ilusão e ignorância.

 

3. Asteya (não roubar / integridade)

Asteya-pratiṣṭhāyāṃ sarva-ratnopasthānam ।।37।।

Trad.: Com o estabelecimento do não-roubar (honestidade/integridade) todas as preciosidades lhes serão apresentadas.

Um dos significados principais de asteya é a não apropriação daquilo que não nos é devido, seja algo material ou não. Além disso, este processo também é um convite à reflexão sobre a incoerência da visão mercantilista que, muitas vezes, se atribui ao Yoga. Assim, é importante lembrar que as experiências vivenciadas no caminho do Yoga não devem ser encaradas como mais uma fonte de consumo e acumulo desnecessário.

Enfim, ao carregar apenas aquilo que é essencial (abstendo-se da cobiça), a caminhada rumo à libertação torna-se mais leve.

4. Brahmacharya (continência / aquele que vai ao encontro do absoluto - brahman)

Brahmacarya-pratiṣṭhāyāṃ vīrya-lābhaḥ ।।38।।

Trad.: Ao utilizar a energia criativa de forma equilibrada/responsável, atinge-se grande vitalidade.

O praticante de Yoga, ao utilizar a sua energia de forma consciente, adota uma conduta equilibrada em diferentes aspectos da vida. Essa postura faz com que o sagrado esteja presente em todas as suas ações.

5. Aparigraha (desapego)

Aparigraha-sthairye janma-kathaṃtā-saṃbodhaḥ ।।39।।

Trad.: Quando se confirma a não possessividade, surge o conhecimento da razão da existência.

O desapego faz parte do processo de quem busca se libertar das amarras que limitam o crescimento espiritual. O desapego não deve estar relacionado apenas aos bens materiais, mas a qualquer ideia ilusória que possa aprisionar e impedir o reconhecimento de sua natureza essencial.   

Niyamas (Observâncias internas)

1. Saucha (pureza)

śaucāt svāṅga-jugupsā parair asaṃsargaḥ ।।40।।

Trad.: Com a prática da purificação, é estabelecida uma relação de desapego com o próprio corpo e também com o corpo dos outros.

sattvaśuddhi-saumanasyaikāgryendriya-jayātma-darśana-yogyatvāni ca ।।41।।

Trad.: Com a purificação, advém a clareza mental, o poder de concentração, o controle dos sentidos e a aptidão para perceber a Si Mesmo.

A purificação pode ser vivenciada em diversos níveis, a limpeza do corpo, uma alimentação consciente, uma boa capacidade de eliminar nossas toxinas são aspectos importantes neste processo purificatório. Porém, para purificar a mente, primeiramente é necessário purificar o ‘olhar’ sobre as coisas. Um observador que cultiva um olhar puro, dissolve os véus da ilusão que o impedem de ver as coisas como realmente são.

2. Samtosha (contentamento)

Saṃtoṣād anuttamaḥ sukha-lābhaḥ ।।42।।

Trad.: O contentamento proporciona a felicidade suprema.

O cultivo do contentamento proporciona plenitude. O praticante de Yoga se sente grato pela dádiva da vida e por todas as experiências vivenciadas, inclusive as dificuldades, que podem ser percebidas como oportunidades de não estagnação, crescimento e aprimoramento pessoal.

3. Tapas (auto-esforço)

kāyendriya-siddhir aśuddhi-kṣayāt tapasaḥ ।।43।।

Trad.: O auto-esforço / disciplina produz a destruição das impurezas, o que conduz ao aperfeiçoamento do corpo e dos sentidos.

Perseverar no caminho do Yoga implica em desconstruir uma série de condicionamentos que podem conduzir o indivíduo à uma situação de superficialidade e comodismo. Quando o sadhaka (praticante) está aberto às mudanças de paradigmas é muito provável que brote nele uma real motivação de se libertar da zona de conforto rumo a uma vida pulsante e repleta de sentido. Através de tapas é possível manter a chama do Yoga acesa e transformar supostas limitações em fonte ilimitada de superações.

 

4. Svadhyaya (auto-estudo)

Svādhyāyād iṣṭa-devatā-saṃprayogaḥ ।।44।।

Trad.: Através do auto-estudo, alcança-se a união com a divindade almejada.

O Yoga pode ser compreendido como um caminho de autoconhecimento, entretanto, é fundamental que o praticante esteja disposto a realizar uma investigação sincera e corajosa sobre si mesmo e a realidade ao seu redor. Assim, perceberá que a fonte mais preciosa e essencial de conhecimento já está presente em seu Ser, basta criar condições para acessá-la. O autoestudo tem por finalidade contribuir com este processo de dissolver a ignorância sobre nós mesmos. Aguçar o conhecimento de si conduzirá, consequentemente, a um olhar e uma postura mais clara sobre as relações que são estabelecidas e a realidade como um todo.

5. Ishivara-Pranidhana (entrega ao divino)

Samādhi-siddhir Iśvara-praṇidhānāt ।।45।।

Trad.:O samadhi (integração) é fruto da  auto entrega a Deus.

O praticante de Yoga (sādhaka) que está alinhado com os princípios fundamentais presentes nesta tradição, possui o dharma como alicerce para todas as suas ações. Assim, o sādhaka (envolto em uma atmosfera de leveza e tranquilidade) desenvolve naturalmente a confiança e a entrega necessária para abster-se de qualquer impulso controlador.

Referências  Bibliográficas

Taimni, I.K. A Ciência do Yoga. Comentários sobre os Yoga Sutras de Patanjali à Luz do Pensamento Moderno. Brasília: Teosófica, 2011.

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