Yoga, Equinócio de Outono e o COVID-19

 

por Diego Cerqueira


Era por volta de 3h da manhã quando passei pelo corredor em direção ao banheiro – tinha acabado de ficar uns 40 min acalentando minha filhinha de 9 meses até ela adormecer novamente – no caminho notei que o  meu celular estava com a luz acesa (geralmente deixo o telefone fora do quarto e em modo avião quando me recolho para dormir). Achei estranho e peguei o aparelho para desligá-lo, foi quando vi um lembrete:

20 de março de 2020 – EQUINÓCIO DE OUTONO às 03h49min.

 
Achei curioso e sintomático ser lembrado pelo celular sobre uma data que num passado longínquo era tão marcante, tendo em vista a profunda conexão que os povos originários tinham com os ciclos da natureza.

 

Enfim, surpreendentemente eu estava sem sono e aproveitando que faltavam poucos minutos para este auspicioso fenômeno, decidi por dedicar algum tempo em meio a madrugada para, segundo palavras do meu filho de 4 anos: “ouvir o silêncio”. Devo dizer que foi uma incrível prática meditativa, repleta de conexão e inspirações que gostaria de compartilhar brevemente com vocês:

 

A palavra equinócio vem do latim, aequus (igual) e nox (noite), e significa "noites iguais", ocasiões em que o dia e a noite duram o mesmo tempo. No entanto, por trás da etimologia e do significado prático, existe uma simbologia profunda que acredito ser muito pertinente para a situação atual:

 

Além do equilíbrio entre luz (dia/vida) e sombras (noite/morte), que aliás é uma das propostas centrais da prática de Yoga, o equinócio de outono representa o final de um período de expansão e extroversão (verão) para gradualmente passarmos para um período de recolhimento e introversão. Este período de transição é muito propício para o processo de autoconhecimento, através do qual, deveríamos parar e olhar para dentro buscando investigar quais aspectos em nós devemos manter e quais devem ser transmutados e/ou renovados. Ou seja, deixar para trás aquilo que já não faz mais sentido e abrir espaço para o que realmente importa, como as árvores que se despedem das folhas e se resguardam para os rigores do inverno, esperando pacientemente o momento oportuno para florescerem e gerarem frutos.

 

Mas e o Corona vírus?

 

Pois é, foi necessário vir do oriente um serzinho microscópico para nos trazer, de forma avassaladora, lições, sobre interdependência, sobre vulnerabilidade, sobre desacelerar, sobre prioridades, sobre como nos organizamos enquanto sociedade e como nos relacionamos com o medo e a morte.

Para além da situação de calamidade, quero realmente acreditar que este momento delicado irá despertar nas pessoas a noção de que o amor e a solidariedade podem ser forças muito mais poderosas do que um vírus.

 

É importante vibrarmos de forma elevada para não cairmos em desespero e sermos engolidos por esta poderosa atmosfera de medo. Mas vibrar apenas não basta. Aliás, temos aqui mais um precioso ensinamento do Yoga, muito presente em uma de suas obras fundamentais: a Bhagavad-Gita. Esta escritura tradicional nos mostra que fé e entrega nada tem a ver com passividade, pelo contrário, são qualidades que devem ser necessariamente precedidas por um estado de Yoga - mente equânime e ações conscientes e efetivas.

 

Ou seja, façamos a nossa parte (pensando no bem comum) para que possamos de fato esperar que o melhor aconteça.

 

Lokah Samastha Sukhino Bhavantu

(que todos os seres sejam livres e felizes)

E que sejamos autorresponsáveis 😉

 

Professor Diego Cerqueira

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